INTRODUÇÃO
A proposta deste projeto foi pensada com a intenção de minimizar a distância entre a realidade e à nova demanda, direcionando e dimensionando o ensino da Cultura, História e Literatura Afro-Brasileira e Africana, assumindo o compromisso de desenvolver novas práticas no âmbito educacional.
O presente argumento esboçou ainda a postura laica do sistema de ensino e ao mesmo tempo
reafirmou que a doutrina escolar está aberta para proporcionar o diálogo, a interação e o respeito mútuo a todo e qualquer credo.
Assim, durante todo o processo, e principalmente, na culminância da comemoração do dia 20 de novembro de 2012, visou-se construir, revelar e assumir perante a sociedade o papel primordial da escola como local de transformação e, em conjunto, desmitificara postura racista e desinformada através da compreensão dos motivos pelos quais ainda há resistência para adoção de ações afirmativas que se provou ser o legado histórico que se mantém no domínio e nas narrativas das cadeiras escolares.
É preciso dizer que no decorrer do ano letivo foram debatidos temas interdisciplinares, transversais com relação à temática Africana e Afro-brasileira tendo no dia Nacional da Consciência Negra a sua culminância. Tais práticas foram obtidas através de aulas expositivas, dialógicas e com o apoio da cinematografia.
A inexistência de uma cultura tipicamente brasileira, de caráter homogêneo, mas sim de diferentes vertentes culturais, é um fato, assim, partindo dessa prerrogativa constatou-se a necessidade de maior comprometimento com relação à temática envolvendo toda a equipe escolar, por isso, anexou-se ao término do trabalho questionários Aluno e Equipe Pedagógica.
Isso possibilitará à escola não só enfatizar apenas os aspectos cognitivo e reflexivo, mas estabelecer conceitos de cidadania, democracia e liberdade, conceitos pessoais construídas a partir dessa experiência e a postura dos profissionais da área da educação com relação a prática da Lei N° 9394/96 e 10.639/03 e as suas ações para por em prática as bases das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, pois são essas que regulamentam e se inserem ao currículo escolar.
EDUCAÇÃO PARA AS RELAÇÕES ÉTNICO RACIAIS
No dia 20 de novembro de 2012 às 9h e 30min., teve inicio a Comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra da Escola Estadual Marieta Soares Teixeira no Núcleo Escolar da Unidade Prisional de Cataguases.
A equipe pedagógica do Sistema Prisional contou com a participação do Diretor Dione, da supervisora Elaine Rafino, da secretária e professora de ciências e biologia Janaína, da professora de Artes Maria Aparecida, de História Luciana Nazar e de Língua Portuguesa Valéria Aparecida Dias.
Foram, também, convidados para o evento representantes de diversos segmentos religiosos, assim como personalidades políticas da cidade de Cataguases dos quais se fizeram presentes Sr. Michelangelo Correa, Sr. Roosevelt Pires ( Doutrina Espírita – Centro Espírita Paz, Luz e Amor); Maria Helena Montenáro Teixeira ( Igreja Católica da Paróquia São José Operário - Pastoral Carcerária); Luiza das Graças Pussente Cavalier (Comunidade Umbandista de Cataguases - Centro Maria Quitéria).
A solenidade se iniciou com a palavra do diretor Dione que convidou a todos a ouvirem o Hino Nacional e em seguida prosseguiu-se o evento dando a palavra à professora de História Luciana Nazar (Especialista em História da África e do Negro no Brasil e em Ciência da Religião), que propôs um novo olhar para o continente africano.
Após, deu sequência a professora Marcinéia (Especialista em Políticas Públicas de Gênero e Raça pela Universidade Federal de Juiz de Fora) com a palestra Reflexões sobre a questão social dos Afrodescendentes, onde evidenciou sua pesquisa, postura e relato pessoal sobre a emblemática questão histórica e o legado de práticas e políticas excludentes que culminou na adoção do sistema de cotas pelo Governo Federal Brasileiro.
Ao encerramento discursivo da educadora Marcinéia, o diretor Dione manifestou sua opinião proferindo-a como professor de História e estudioso sobre a posição da humanidade com relação à exploração e a escravidão perfazendo o contexto histórico onde não apenas negros foram escravizados, mas judeus, hebreus contrapondo questões de ordem social e de faltas humanas.
Após, deu sequência a professora Marcinéia (Especialista em Políticas Públicas de Gênero e Raça pela Universidade Federal de Juiz de Fora) com a palestra Reflexões sobre a questão social dos Afrodescendentes, onde evidenciou sua pesquisa, postura e relato pessoal sobre a emblemática questão histórica e o legado de práticas e políticas excludentes que culminou na adoção do sistema de cotas pelo Governo Federal Brasileiro.
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Especialista Marcinéia |
Ao encerrar sua analise foi oferecida a oportunidade para os convidados manifestarem sua posição e a trazerem uma palavra que resumisse a intenção do momento vivido.
Apenas dois representantes manifestaram-se, o primeiro a se pronunciar foi o Sr. Roosevelt Pires, que defendeu o ponto de vista da religião como principal impulsionador das grandes mudanças no caráter humano e a Sra. Luíza que ressaltou a sua crença e as práticas Umbandistas de práticas ao Amor, a Paz e a Caridade.
Ambos os convidados exploraram em suas falas a defesa de um único Deus para todos e manifestaram a defesa da liberdade de escolha de cada indivíduo em sua espiritualidade. Ao concluir dos dizeres, o diretor Dione participou a todos da confraternização, convidando-os para degustarem pratos típicos da cultura Afro-Brasileira.
AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA
Com a intenção de compreender, avaliar e redimensionar o processo de ensino e aprendizagem na interface da nova demanda para a grade curricular do ensino da cultura, da História e de Literaturas Africanas e Afro-Brasileiras pensou-se no Questionário Aluno e Equipe pedagógica.
Entretanto, vale salientar que as pretensões desse é de somar ao trabalho cotidiano e ao evento do dia 20 de novembro no Sistema Penitenciário de Cataguases novas metodologias a respeito do tema. Sendo que para tal pesquisa foram respondidos no total quarenta questionários, ou seja, trinta alunos e dez profissionais da educação (ver sequência do Anexo 5- Questionário 1).
Pode-se concluir com as questões propostas que a maior parte dos alunos entrevistados se auto declararam negros ou pardos, não sendo diferente dos dados obtidos segundos fontes do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) para o contingente do Sistema Penitenciário Nacional. No entanto esse dado é de vital importância para a compreensão das questões sociais que circundam essa realidade, tornando-a impactante, mas sendo necessária ser revelada e compreendida nas questões históricas, políticas e conceituais.
O fato embora degradante merece ser trabalhado em sala de aula, mas sob um novo olhar e esse deve ser de sensibilidade para com o processo identitário não só do povo brasileiro, contudo de cada indivíduo. Pois neste ponto existe uma infinidade de pressupostos que necessitam ser abalados.
O que de mais curioso revelou-se na pesquisa foi à notória inclinação dos alunos contra o sistema de quotas, por acreditarem que o benefício feri o direito de igualdade e o privilégio nega a capacidade dos afrodescendentes. Todavia, é importante ressaltar que os mesmos alunos confidenciaram desconhecerem a origem e os articuladores que proporcionaram a vigência desse sistema na Constituição Brasileira.
Já o segundo questionário tenciona observar a maior tendência da postura dos profissionais da educação com relação à temática. Os questionários Equipe Pedagógica ( ver sequência - Anexo 5- Questionário 2), revela que a maior parte dos profissionais se declararam brancos, sendo no total um negro, um pardo e oito brancos.
Quanto a temática a pesquisa guarda uma impressão ingênua e pouco explorada sobre o assunto uma vez que os profissionais não compreendem a dimensão das questões sendo taxativos, evasivos e superficiais com relação a aplicação e conhecimento da lei e dos PCNs.
Acredita-se que para uma melhor avaliação e continuidade deste trabalho o questionário poderia auxiliar. Sendo assim, a pesquisa seria uma fonte para ser revista, pensada e analisada por toda a equipe e a seguir em comum acordo seria elaborada uma proposta de um novo projeto para ser aplicado no decorrer do próximo ano letivo almejando o avanço no processo de ensino e aprendizagem para novas práticas de educação étnico raciais.
CONCLUSÃO
O presente trabalho buscou no decorrer de todo o ano implementar a lei de Diretrizes e Bases da Educação, N° 9394/96 e a Lei 10.639/03 e em especial no 20 de novembro revelar outras formas de se pensar e vivenciar o Dia Nacional da Consciência Negra, visto que esse dentro das instituições educacionais ainda carece de novas abordagens e de estudo, não só no que diz respeito aos dicentes, mas a todo o corpo docente.
Assim a defesa de tal ponto de vista deve-se ao próprio desenvolvimento do trabalho e as questões que ele realçou como a carência de se pensar e ter nas práticas e sequências didáticas toda a equipe pedagógica, não apenas legar esse papel aos professores que por questões ideológicas sintam-se mais familiarizados com tema. Ao pesar dessa forma garante-se a aplicabilidade da lei a isenção de “achismos” e de opiniões deturpadas e estereotipadas, mas através do todo o senso mais vasto e rico de ponderações.
Esse fator individualmente ressalta a obrigação de todos para com o Ensino da Cultura Africana e Afro-brasileira como temas transversais e interdisciplinares e se subentende que uma vez que essas ações sejam negligenciadas o leso acarretará no mesmo senso comum e no reafirmar a mesmas posturas arcaicas as quais são repudiadas pelos PCNs.
Entretanto, é necessário refletir que a aplicabilidade de uma lei passa por processos e a critica expressa aqui quer ser notada como construtiva e como uma contribuição para o alcance da auto-estima dos alunos afrodescendentes e também um ganho de respeito, de identidade para as escolas brasileiras.
Outro fator de vital importância para a conclusão do projeto foi o estudo social do material humano a que tivemos acesso, pois somos educadores de um Sistema Prisional. Então a parcela que cabe a cada profissional é a de compreender o meio ao qual está inserido e o desenvolver da melhor forma mecanismos que atinjam uma excelência para o êxito no processo ressocializador que ao nosso trabalho compete.
O pioneirismo com que ações afirmativas ganham espaço no Brasil deixam margem para muitas contradições e é no espaço escolar que todas essas mudanças talvez sejam vistas e postas ao ponto de serem transformadoras e de extrema valia para toda a
sociedade, sendo assim a conclusão desse trabalho foi um ganho para a educação e para toda a equipe pedagógica e demais alunos que no decorrer do próximo ano espera-se que esse sirva de incentivo a novas práticas de sequências didáticas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Brasília/DF: SECAD/ME, 2004.
BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e dá outras providências. Diário Oficial da União. Brasília, DF, 10 jan. 2003.
BRENO, Laís Rios. DIAS, Valéria Aparecida. Por um Ensino de Literatura Afro-Brasileira e Africana: entre o real e o ficcional. Monografia para obtenção da Especialização em Estudos Literários.
HERNANDEZ, Leila Leite. A África na Sala de Aula:Visita à História Contemporânea. São Paulo: Selo Negro, 2008. p.11
ANEXO 1 | PROPOSTA DO EVENTO
COMEMORAÇÃO DO DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA
SISTEMA PRISIONAL DE CATAGUASES
EDUCAÇÃO PARA AS RELAÇÕES ÉTNICO RACIAIS
DIA: 20 DE NOVEMBRO DE 2012
LOCAL: NÚCLEO ESCOLAR DO PRESÍDIO DE CATAGUASES
HORÁRIO: 9h às 12h
EQUIPE PEDAGÓGICA
João Dione Sarquer Augusto ( Diretor da Escola Estadual Marieta Soares Teixeira)
Elaine Aparecida Rafino da Silveira (Supervisora Pedagógica)
Janaína Valverde Garcia (Secretária e professora da disciplina de Ciências e Biologia)
Luciana Nazar (Disciplina de História)
Maria Aparecida Gomes Rosa (Disciplina de Artes e Sociologia)
Valéria Aparecida Dias (Disciplina de Língua Portuguesa)
Representantes do Sistema Prisional de Cataguases
Giuliano de Paula - Diretor Geraldo presídio de Cataguases
Isabella - Assistente Social do presídio de Cataguases
ALUNOS (ACAUTELADOS)
1° Período Ensino Fundamental
2° Período Ensino Fundamental
3° Período Ensino Fundamental
1° Período Ensino Médio
2° Período Ensino Médio
CONVIDADOS
Luiza das Graças Pussente Cavalier e Maria Cristina Henriques da Silva (representantes da comunidade Umbandista de Cataguases - Centro Maria Quitéria)
Maria Helena Montenáro Teixeira (representantes da Igreja Católica da Paróquia São José Operário - Pastoral Carcerária)
Pastor Otávio Júlio Torres (representante da Igreja Metodista)
Davi (representante da comunidade Evangélica)
Roosevelt Pires(representante da Doutrina Espírita – Centro Espírita paz, Luz e amor)
AUTORIDADES POLÍTICAS DA CIDADE DE CATAGUASES
Geraldo Luquini
Michelangelo Correa
OBJETIVOS DO EVENTO
Incentivar a prática de valorização da cultura negra da região uma vez que a data reafirma a importância do ensino da Cultura, história e literatura Africana e Afro-brasileira nas instituições educacionais, sendo essa incluída no currículo das escolas públicas e particulares do ensino Fundamental e Médio por meio da Lei N° 9394/96 e 10.639.
DESCRIÇÃO DA PROPOSTA
Através dos convidados do evento proporcionar um novo olhar sobre a cultura Afro, já que por vezes ela é percebida de forma deturpada e carregada de preconceitos por vários segmentos e instituições da sociedade.
Desta forma, incluir aos demais convidados o representante mais expressivo da religiosidade Afro-brasileira na pessoa de Luíza das Graças Pussente Cavalier , produz em nós, educadores, a motivação e a crença de que estamos participando ativamente do processo que visa defender, respeitar e multiplicar ações afirmativas que garantam o pleno gozo dos direitos de igualdade previsto na constituição brasileira e que se faz dever da escola difundir para a construção de alunos e cidadãos mais conscientes de sua identidade e do meio que estão inseridos.
Ainda estão previstos para a comemoração a palestra com título Reflexões sobre a questão social dos Afrodescendentes pela professora Marcineia Candido (Especialista em Políticas Públicas de Gênero e Raça pela Universidade Federal de Juiz de Fora) onde serão observados a real situação da população negra brasileira com dados estatísticos que comprovam a desigualdade e a relevância da existência de um dia para se refletir, repensar a situação da população Afro-brasileira; além da exposição da cultura e de outras informações relacionadas a temática como:
- Mural contendo a localização de todos os países que constituem o continente africano e suas particularidades no que diz respeito à nacionalidade, a língua falada, modelo político;
-Telas, figuras e fotos que despertem a poesia;
- Leitura e apreciação de fragmentos textuais, poema, relatos, biografias, músicas, etc;
-degustação de comidas típicas da cultura Afro- brasileira (pedimos a liberação para servirmos “cumbuquinhas” de feijoada com acompanhamento de pão, farofa industrializada, couve, laranja e cocada, sendo esclarecidas curiosidades da origem histórica de cada alimento).
RECURSOS A SEREM DISPONIBILIZADOS
Mídias: Datashow, Som, Microfone;
Material para ornamentação do local
Instrumentos musicais: violão, atabaque e pandeiro
Atenciosamente,
Valéria Aparecida Dias
Núcleo Escolar do Sistema Prisional de Cataguases
Cataguases, 13 de novembro de 2012
ANEXO 2 | MODELO DO CONVITE
CONVITE
A Escola Estadual “Marieta Soares Teixeira” – Unidade Prisional convida a Comunidade Católica sendo por V.Sª representada, juntamente às demais autoridades e segmentos religiosos, da comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra a realizar-se no dia 20 de novembro de 2012 no Núcleo Escolar do Sistema Prisional de Cataguases a partir das 09 horas.
(...) aquilo que fazemos, individualmente ou em grupo, exprime em larga medida aquilo que pensamos de nós mesmo e do outro. Nesse cenário, a escola se torna, inevitavelmente, um lugar privilegiado que reflete, através de diferentes perspectivas, o rico e desafiador enredo das relações sociais. Daí, a necessidade imediata de educadores e educandos se articularem, a fim de estabelecer redes de convivência que resultem não só no ensino-aprendizado de determinados saberes,mas, para além disso, na percepção e na aceitação da importância de outras tantas maneiras de viver e de saber. KLEIMAN, Angela. Texto e Leitor: Aspectos cognitivos da Leitura/AngelaKleiman. 5ª edição. Campinas, SP: Pontes, 1997. p.10
Atenciosamente,
João Dioni Sarquer Augusto
(Diretor da Escola Estadual Marieta Soares Teixeira)
Cataguases, 15 de novembro de 2012.
ANEXO 3| CRONOGRAMA DO EVENTO
COMEMORAÇÃO DO DIA NACIONAL DE CONSCIÊNCIA NEGRA
Escola Estadual Marieta Soares Teixeira - Unidade Prisional
“...O real não está na saída
nem na chegada: ele se dispõe
para a gente é no meio da travessia.”
Guimarães Rosa.
“Por fim, segundo os historiadores, malungo era o termo usado pelos cativos para nomear um companheiro durante a desafortunada viagem dos navios negreiros. Essa é uma recordação. Ante os desafios a serem vencidos pelos educadores, educandos e familiares na travessia dos embates sociais, oxalá sejamos malungos contemporâneos. Esse é um desejo sincero.” Edimilson de Almeira Pereira (Professor de literatura na UFJF, mestre em literatura e em ciências da religião e doutor em comunicação e cultura).
É com muita alegria que
recebemos vocês nesse dia!
Equipe pedagógica.
CRIMINALIDADE
Fenômeno pelo qual se observa a incidência de crimes, no tempo e no espaço, em razão de causas diversas. Os primeiros estudiosos sobre o negro no Brasil concentraram-se em aspectos criminológicos. A propósito, o sociólogo Guerreiro Ramos, nos anos de 1950, afirmava que a maior frequência de negros na estatística de determinados delitos resultava de sua predominância em certas camadas sociais, e não de tendências ou inclinações naturais, como então se insinuava. Atualizando o raciocínio de Ramos,veremos por exemplo, que, se nas favelas cariocas, à época da finalização desta obra, os negros eram maioria entre os envolvidos com o narcotráfico, isso não ocorria por uma tendência natural dos negros em se ligar com o crime, mas por serem eles maioria entre as populações faveladas.
(LOPES, Nei.Dicionário escolar Afro-brasileiro.p.47.ed.Selo negro Edições.São PauloP2006).
A imagem do negro no Brasil e no mundo
A África, entendida aqui como um continente, abriga marcas culturais e linguísticas distintas que variam segundo o país e/ou a região. Segundo o site African Cultural Center,
Modern Africans are arguably the most diverse people in the world. More than 3,000 unique ethnic groups are recognized in Africa. The customs, languages, and cultural mores of people on the continent are quite different from country to country and from region to region.
Esse fator individualmente tornaria a generalização do continente injustificável. Porém, trata-se de um costume ocidental unificar a África e impor a seu povo que assuma uma “identidade africana”. É possível, no entanto, que haja uma única identidade quando há, em um mesmo espaço, tantas diferenças culturais e sociais? Acerca dessa pergunta, em África na sala de aula: visita à história contemporânea, de Leila Leite Hernandez, há o comentário intitulado “Um retrato sem moldura”, do escritor moçambicano Mia Couto:
Aconteceu num debate, num país europeu.Da assistência, alguém me lançou a seguinte pergunta: Para si o que é ser africano?Falava-se, inevitavelmente, de identidade versus globalização. Respondi com uma pergunta:_ E para si o que é ser europeu?O homem gaguejou. Ele não sabia responder. Mas o interessante é que, para ele, a questão da definição de uma identidade se colocava naturalmente para o africano. Nunca para os europeus. Ele nunca tinha colocado a questão ao espelho.
Recordo o episódio porque me parece que ele toca uma questão central: quando se fala de África de que África estamos falando? Terá o continente africano uma essência facilmente capturável? Haverá uma substância exótica que os caçadores de identidades possam recolher como sendo a alma africana?
Leila Leite Hernandez conhece a resposta. Ou melhor, a impossibilidade da resposta. Afinal, é a própria pergunta que necessita ser interrogada. São os pressupostos que carecem ser abalados. E onde se enxergam essências devemos aprender a ver processos históricos, dinâmicas sociais e culturais em movimento.
África vive uma tripla condição restritiva: prisioneira de um passado inventado por outros, amarrada a um presente imposto pelo exterior e, ainda, refém de metas que lhe foram construídas por instituições internacionais que comandam a economia.
A esse mal-entendido se somou uma outra armadilha: a assimilação da identidade por razões da raça. Alguns africanos morderam a isca. A afirmação afrocentrista sofre, afinal, do mesmo, erro básico do racismo branco: acreditar que os africanos são uma coisa simples, uma categoria uniforme, capaz de ser reduzida a uma cor de pele.
Ambos os racismos partilham o mesmo equívoco básico, ambos se entre ajudaram numa ação redutora e simplificadora da enorme diversidade e complexidade do continente. Ambos sugerem que “ser” africano não deriva da história, mas da genética. E no lugar da cultura tomou posse a biologia.
Outro lugar-comum nestes exercícios de dar rosto ao continente africano é peso concedido à tradição. Como se outros povos, nos outros continentes, não tivessem tradições, como se o passado, nesses outros lugares, não marcasse o passo do presente.
Os africanos tornaram-se, assim, facilmente explicáveis. Basta invocar razões antropológicas, étnicas ou etnográficas. Os outros, europeus ou americanos, são entidades complexas, reservatório de reações sociais, históricas, econômicas e familiares. Leila leite Hernandez esteve atenta a todo este universo de equívocos. O seu texto percorre esse mar de enganos e constitui-se como um permanente alerta. Como ela escreve a dado passo: “[...] a África ao sul do Saara, até, hoje conhecida como África negra, é identificada por um conjunto de imagens que resulta em um todo indiferenciado, exótico, primitivo, dominado, regido pelo caos e geograficamente impenetrável.”
E esta a marca primeira e mais profunda desta procura em Leila Hernandez: o desfazer permanente de estereótipos e o convite para um olhar aberto, disponível e crítico. Leila leite Hernandez conhece bem os terrenos minados dessa procura de identidades. Todo o seu percurso, ao longo deste texto, é um aviso aos falsos navegantes. O destino, aqui, é a própria viagem. São as dinâmicas, os conflitos particulares que definem identidades plurais, complexas e contraditórias. O rosto do continente só existe em movimento, no conflito ente o retrato e a moldura, a sala de aula para que Leila está conduzindo a África não é um lugar fechado, mas uma proposta de uma relação nova com algo que se pensava, de antemão, já conhecer.
ANEXO 5 | QUESTIONÁRIOS- AVALIAÇÃO DO PROJETO
ANEXO 5 | Questionário 1 – Aluno
P.1 Qual a faixa etária na qual você está inserido(a)?
( ) 11 a 14 ( ) 15 a 18 ( ) 19 a 24 ( ) 25 ou +
P.2 De acordo com a classificação do IBGE, qual a sua cor?
( ) Branco ( ) Negro ( )Pardo ( ) Amarelo ( ) Indígena
P.3 Qual o seu nível de ensino atualmente?
( ) Fundamental ( ) Médio ( ) EJA
P.4 O que você entende por “Cultura Afro”? Pode definir ou exemplificar?
___________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
P.5 O quanto você gostou da palestra?
( ) não gostei ( ) bom ( ) muito bom ( )excelente
P.6 O que ficou de mais significativo para você na palestra da professora Marcinéia Candido Reflexões sobre a questão social dos Afrodescendentes
P.7 Do que você gostou no evento?
( ) Documentos e obras datados do período da escravidão
( ) Obras escritas por autores negros
( ) Obras que possuam negros como personagens principais
( ) Obras importadas do continente africano
( ) Temas relacionados à Cultura Afro
P.8 Qual a sua posição com relação às quotas para negros nas universidades?
( ) Sou contra Por quê?
( ) Sou a favor Por quê?
ANEXO 5 | Questionário 2 – Equipe Pedagógica
P.1 Para qual(is) nível(is) de Ensino você leciona atualmente?
( ) F. Anos iniciais ( ) F. Anos Finais ( ) Médio ( ) EJA
P.2 Qual conteúdo você leciona?
( ) Pedagogia ( ) História ( )Artes ( ) Língua Portuguesa ( ) outra
P.3 De acordo com a classificação do IBGE, qual a sua cor?
( ) Branco ( ) Negro ( )Pardo ( ) Amarelo ( ) Indígena
P.4 O que você entende por “Cultura Afro”? Pode definir ou exemplificar?
P.5 Qual a sua posição com relação às quotas para negros nas universidades?
( ) Sou contra Por quê?
( ) Sou a favor Por quê?
P.6 Como você costuma trabalhar cultura / história / Literatura Afro em sala?
P.7 Quais as dificuldades ao se trabalhar esse tema?






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